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  • Foto do escritorClara B

Guerrilha do Brincar

Desde que a primavera chegou e o corpo clara vai se sentindo com mais brilho, acompanhado de mais tempo de luminosidade dos dias. Desde que a primavera chegou, também, surgiu um corpo clara pronto para a guerra. Andar pelas ruas do coração de Lisboa está a ser uma experiência bastante dura.

A primavera chegou e o meu corpo está pronto pra guerra.


Quando apareceu o convite de ir pra rua com o ajuntamento das pessoas crianças e famílias que vivem e atravessam o c.e.m todas as quartas feiras, pensei em como atravessar a rua que me prepara pra guerra?


A princípio houve alguma resistência em ir... Todes de todas as idades. Acontece que fomos... E os pés levaram à Rua da Prata, que está fechada para carros. Sabe aquela sensação deliciosa de andar pela rua que passa carros mas não está a passar carros? E de repente podes estar num lugar que não é seu, mas é… Se calhar, descobres que sempre pôde, mas é que não é indiferente estar quando pode e quando não pode. E lá está aquela velha história, desde o tempo das escolas velhas, sobre atravessar o corpo e as experiências por entre esperas de permissões para alguma coisa.





Ainda na casa c.e.m o Mário queria ficar. Quis ir dançar um bocadinho na sala branca. Dançamos um tanto, beijamos o chão e deixamos que o chão beijasse de volta. Quinze minutos de dança, pensamento em movimento, conversas e decisões no estúdio e segue o caminho de ir pra rua. Olivia sugeriu que fossemos à uma rua que tivesse um parquinho. Taí: Uma rua que passa carros e não está a passar carros parece um grande parquinho.


Pega nas coisas, calça os sapatos e bora lá. Rua, mãos dadas, reconhecer o trajeto e contar que lembra que andou de tuk tuk alguma vez. Pergunta pra mãe se é verdade e Ana Sofia não lembra ser verdade, mas devolve a pergunta da memória (aquele bicho louco), com: "se tu te lembras, deve ter sido...". Já eu, não me lembro a ordem exata das palavras que Manoel de Barros disse, então, fica as palavras da Clara, daquilo que Manoel escreveu um dia: "se eu não sei eu invento" e aí a coisa passa a existir. Tá bem, então deve ter sido mesmo um passeio de tuk tuk.


(os mesmos que me deixam louca com o corpo pronto pra guerra andando pelas ruas de Lisboa - Grande amor partido).


E anda mais um pouco, e atravessa por entre corpos, e cansa de carregar o que escolhi pra trazer, e partilha o carregamento, e desiste, e vê se dá para atravessar, se os carros vão parar, se as obras continuam, se o chão com inclinação pode ser um escorrega, e sempre pelo passeio onde é suposto estarem peões, pedestres, pessoas. E passa por outra rua com carros que desciam sentido rio e agora sobem sentido Martim Moniz. As inversões de sentido que reconfiguram o corpo acostumado a olhar sempre para o mesmo lado.


Numa rua de carros: para atravessar olhe para os dois lados. Mas tem sempre aquele lado que olha com mais atenção que o outro. E se inverter as direções, a atenção vai em qual sentido?


Antonio leva nas mãos um carrinho para a rua sem carros. Do passeio dos peões, os pés tocam o asfalto. Ainda (h)exi[s]te alguma tensão. Olivia pergunta se não há mesmo carros a passar. A desconfiança do corpo ao estar num sítio que não pode estar e agora pode. Tipo a rua que passa carros e agora não passa mais. O caminho da desconfiança até desaparecer o "des" e passar a confiar é muito....é... muito (o corpo respira profundo buscando a palavra). Talvez a palavra seja muito, mesmo.


O caminho da desconfiança até desaparecer o "des" e talvez o "nça" e ficar o confia e nesse trânsito entre um e outro, nesse balanço entre aparecer e desaparecer, na ação, no avançar da coragem, escuta, ousadia... O confia passa a ser verbo.


E agora já é possível arrancar por longas corridas no asfalto. O corpo já confiar no corpo.


corpo confiar corpo

(se inverter o sentido da leitura fica a mesma coisa)

corpo confiar corpo ao contrário é corpo confiar corpo





Inverter o sentido do caminho, andar de frente, andar de costas. A travessia sentido rio ao Martim Moniz. sala-branca-rua rua-sala-branca.


UM GRITO:

corpo, confiar corpo!


dança, dança, dança. corre. brinca. olha se o carrinho de brinquedo cabe no buraco do trilho do elétrico. abre uns fios. abre o pano cor de rosa. deixa voar. passa a ser casa na rua. tenda. esconderijos. capa gigante. dá pra fazer o barco na rua? teias de aranha. molas nos fios. olhos atentos às bicicletas.





Na rua que passa carro e agora não passa mais, as bicicletas e trotinetes continuam a passar. Atenção, só que agora:

corpo confiar corpo.


O vento frio vai convidando o recolhimento, o retorno à casa c.e.m vai acontecendo. Agarra o que trouxe. Olivia convida ir aos saltos para aquecer o corpo. Vem Luisa, vem toda gente. E então, uma porta se abre ao exercício de convidar práticas ao coletivo:

“Agora, se fossemos pássaros?

E agora, andar de lado” dizia, Olivia.

Olho pro Vasco e pro Francisco e lá vão os dois chamando o Caranguejo pra presença de ser quem quer ser (sala-branca-rua)

Volto para Olívia - “Agora, andar a dançar. Agora, marchar. Agora, fazer música com o som dos pés no chão. Somos uma garrafa de vinho. Correr. Congelar…”


Vou sentindo que nem sempre a diferença entre mandar fazer algo e convidar está na construção e escolhas das palavras. É a tal construção de presença e de atmosfera para convidar o acontecimento, confiando que uns vão vir contigo, outros não, mas a tal atmosfera entre corpos, tá com tanto alinhamento que tudo é possível. E então, aquela velha história das escolas velhas de atravessar a experiência por entre permissões, passa a ganhar outra luminosidade.





Vamos chegando perto da porta do c.e.m, os corpos já vão fazendo a curva para entrar num sítio que já é tão nosso, quanto nossa casa. Poisar um bocadinho lá em baixo. Poisar a experiência. Cantar mais uma canção… “Ora zuz truz truz, ora zaz trás trás, ora chega chega chega, ora volta lá pra trás”.


E no baloiço entre avançar, recuar, confiar, ousar, escutar, esconder, atrever, convidar, duvidar, voltar a confiar, correr, cair, levantar, errar, chorar, gritar, poisar, cantar, testar, inventar, lembrar, observar…. Vai a dança acontecendo.

A dança vai…


No corpo pronto pra guerra, talvez vai surgindo a guerrilha do brincar. Pronta para crescer junto da cidade-mundo-louco que vai insistindo sua presença na luminosidade dos dias.


Abril em Lisboa,

Clara


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