Amigas da

Baileia

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Sobre as músicas e a experiência de criar!
Processo de criação das músicas do CD

 

A história do menino que virou um bicho

 

Tudo começou com uma contação de história.

      Era uma vez...  Era uma vez uma escola e crianças que gostavam muito de ouvir histórias. Era uma vez um professor de música que também gosta de ouvir histórias, mas também gosta de contá-las.

Percebia nas conversas com os pequenos e ao observar as professoras contando histórias, todo o potencial lúdico, imagético e expressivo que as histórias podem trazer para as crianças e como era grande o interesse delas.

      Um dia as crianças do primeiro período pediram para que eu contasse uma história. Estava com o violão, pensei que poderia ser uma história-música. Me veio à cabeça partes de uma história que eu gostava muito, que se chama Dun Dun Cererê, contada pela querida Vovó Caximbó.

      Essa turma gostou tanto da história que nos dias seguintes queriam escutá-la repetidamente e em pouco tempo a escola toda estava vidrada nessa história. Contei-a de diversas maneiras e a reinventei o quanto pude.

     

      Era uma vez um belo dia em que o professor não quis fazer o que as crianças pediam, e não contei a mesma história de novo, agora era monstro, corria monstruosamente atrás das crianças, dizendo que virei um bicho.

      Nessa brincadeira alguns viraram feras e como a brincadeira é parte do aprendizado, fomos nos expressando de diversas formas: pedir para cada um fazer uma careta, careta com som, imitar o som que os outros fizeram...

      Uma criança não queria mais aquilo, apontou para o violão e pediu que cantássemos, mas estamos brincando disso ainda! Dedilhei um acorde menor até que surgir:
“o José virou um bicho numa noite de sexta-feira, ele tinha a casca dura e uma cara muito feia”.

      Aconteceu! Na hora, sem esforço, um a um, todos virando bichos.

     

      Era uma vez um belo dia em que o professor se cansou de cantar a mesma música repetidamente.

      Algumas crianças estavam a pedir para contar histórias, então comecei...
      “Era uma vez uma menina que se chamava Maria e que estava brincando na escola...”

      Criei o esboço da “história do menino que virou um bicho” em que no seu final cantávamos o “virou bicho”.

 

      Era uma vez uma história que virou brincadeira, que virou música, que virou outra história, que viraram mais músicas, que virou um bicho numa noite... ops! Que virou um CD!

Aquecimento dos bichos 

      Pulapula pulapulapula

      Me lembro de chegar no pátio para meu horário com as crianças de 4 anos e elas estarem correndo,

pulando, gritando, uau! 

      Consegui uma atenção, uma roda, começamos a cantar cantigas de roda, naquela ligeira impressão que uma canção tranqüila tranqüiliza. Sim isso acontece, com alguns, e os que não se contentam em ficar sentados logo dão um jeito de levantar e se movimentar. Daí pra frente é um Deus nos acuda!

      “já que vocês querem dançar, então segura essa”

      E aí vieram vários verbos-movimentos em diversos andamentos.

Conversa

      Estava com algumas crianças em nossas brincadeiras de compor músicas. Gravávamos algumas ideias para depois escutar, mostrar para os colegas e ver se poderia “virar música”.

      Nisso, Ana Lara vê que eu e Arthur insistíamos numa letra coerente. Ela passa por nós e continua brincando com as meninas.

      Depois Ana Lara passa por nós e vê que Bruno, com toda sua peculiar delicadeza, toma o celular das nossas mãos e canta sem parar uma música que ele disse ter inventado. Criava na hora frases repetidas, que emendam noutras frases com as mesmas palavras, num mesmo ritmo e numa mesma melodia de 5 notas (numa entonação de  música sertaneja).

      Já estávamos ficando inquietos com Bruno, pois sua gravação/criação não tinha fim, e estávamos no meio de outra canção. Arthur e eu queríamos fazer um rock horripilante, uma super letra bem original.

      Então Ana Lara vem até nós, e pergunta se poderia cantar uma música também e, com certa timidez, levou o gravador para outro lado e... pronto! A música veio pronta!

      Fiquei espantado! Duas frases, coerentes, lúdicas, imagéticas com a melodia bonita, bem delineada, prontinha!

      Ouvimos. Eu e Arthur nos olhamos e nesse olhar vimos que era hora de parar nossa tentativa de compor.           Tá certo que não é um rock horripilante, mas foi ainda melhor: da espontaneidade, em 30 segundos, com toda a simplicidade do mundo, em duas frases ela conseguiu uma canção autêntica, começo meio e fim.

BossaRock do tubarão

 

      _ Tio tio tio, o que você ta fazendo?
      _ Nada, estou aqui com o violão na mão.

      _ Ah, você ta tocando! Ta tocando o que?

      _ Não sei, nada. Estou criando uma música na minha cabeça.

      _ Ah, música de que?

      _ Não sei. Você quer que eu faça uma música de que?

      _ Não sei. Humm...

      Passa outra criança, que não sei se viu nosso diálogo ou não:

      _ Oooo tio, canta a música do tubarão?

      _ Música do tubarão! Isso não existe não!

     Fiz uma cara de mal, falei que era um tubarão. O tubarão atacou sua presa que antes disso ainda tentou bravamente nadar pelo pátio e se esconder subindo no pé de limão.

     As crianças foram para o parque. Sentei ao lado.

     Areia, sol, tubarão, praia, bossa nova, praia, surf, rock. Bossa, bola, bolero...

 

 

Passeio dos monstros

 

      “tio tio tio, faz uma música de terror!” alguma criança do segundo período disse. “mas tem que ser rock and roll”, outra completou. Tentei várias frases, me disseram que tinha que começar com o lobisomem e que tinha que ter vampiro e zumbi.

      Fui pra casa e escrevi um pedaço da música, que ficou escrito e engavetado. Agora vão escutar o restante!

 

 

Moleca-Meleca

 

      Ana Júlia havia entrado na escola naquele ano, e não conhecia “aula de música” gostava muito de aprender músicas novas. Todos os dias que me via pedia pra cantar uma música diferente. Adorava, pois já que queria me escutar cantava o que sabia e o que não sabia que sabia, músicas do repertório infantil tradicional, grupos atuais, alguns rocks e sambas que me vinham à cabeça.

      A vida não é só na escola... Cheguei atrasado, mil coisas, chateado, colegas de cara feia, corpo cansado...

Passei no pátio e as crianças do primeiro período (4 anos) estavam brincando. Ana Júlia veio correndo, um abraço que quase me derrubou no chão, “opaaa, não precisa me derrubar, nem ficar dependurados  em mim” “tio canta uma música nova!” “não tenho” “não?” “não!” “nenhuma?” “não!” “nenhumazinha?” “não! Não sei, não conheço, não lembro!” “se não lembra, faz uma”, “vou cantar qualquer coisa”.

      Me veio então a velha marcha estereotipada de música infantil, a velha tonalidade que dizem que é a melhor para crianças cantarem, um andamento lento, uma cara de ironia, o velho Era uma vez... respirei fundo e cantei olhando bem para ela:
“era uma vez, uma menininha, era tão custosa que virou uma melequinha!”

      Olhei profundamente para ela e...
“melecamelecamelecamelecameleca”.

      Desabafei, sai...

      No outro dia... nem sei o que dizer sobre isso!
“tio canta a música da meleca?”

      Ela riu, fez uma cara ótima, olhinhos brilhando, animadíssima esperando a música e a hora de brincar de virar meleca.

 

      É por isso que digo que os professores aqui são as crianças.

 

 

Olha a bruxa

 

      Parece que há uma esfera que rodeia a escola nas mesmas temáticas. Eles querem brincar de sentir medo, os vilões são seus heróis... o lobo está aí, é até nome de uma turma! História sem lobo e sem bruxa não tem graça! dizem eles.

      Desde o final de 2012 fui percebendo isso e vendo que na medida em que as crianças ouvem e brincam com essas histórias, personagens e temas, com mais intensidade e naturalidade isso surge na escola. Talvez por isso logo no começo de 2013 para as crianças de 2 anos eu era o lobo. Sim, para alguns eu me chamava Lobo, e a nossa diversão durante todo o ano era eu tentar pega-los, ser o lobo mau.

      “O menino que virou um bicho” e “A Noite no Castelo” do compositor Hélio Ziskind eram os hits de sucesso na escola!

      Sempre falavam da bruxa, e pediam uma música que falava de bruxa.

      Numa tarde que trouxe o cavaquinho para a escola fiquei tocando marchinhas, e ao me pedirem músicas de susto a bruxa veio, pegando criança por criança, fazendo sopa delas e as deixando dentro de sua barriga.

 

Nem tinha feito a ligação e numa bela manhã uma menina me fala: tio, essa é a música do João e da Maria?

 

 

Tapete voador 

 

      No ano de 2013 vi uma infinidade de amarrações de tecidos em variados lugares, as professoras estavam sempre transformando o espaço, ambientando de diversas formas e criando brincadeiras com tecidos. A turma do 1º período estava no quiosque e havia um tecido retangular laranja amarrado no teto por suas quatro pontas. Achei ótimo, estava lindo!

     A "patota das Marias e das Júlias" quando me viam vinham correndo falar, contar, abraçar, cantar, perguntar, mostrar algo, mas messe dia não dei muita bola, queria admirar os tecidos. Então também não me deram muita bola! Ana Júlia ficou ao meu lado olhando também os tecidos. “O que que é aquele tecido ali no teto?” “não sei, tio” “olha, cabe certinho aqui no centro, é um tapete no teto” “tapete no teto, isso não existe!” “é claro que sim, um tapete voador!” “tapete voador???”  Ana Júlia ficou com uma cara de interrogação gigante. Saí. Voltei com o cavaco e num ritmo meio carnaval da Bahia cantei para ela: “oh oh oh oh, é um tapete voador!”

 

 

Festa das caveiras 

 

      Estava com o violão fazendo alguns ritmos que lembram catira, guarânia, cururu.

      Me vem uma criança da turma de 4 anos e pediu uma música sobre caveiras. “qual?” “aquela que a gente dança!” “é tio, toca música pra gente dançar!” Creio que estava influenciado por um cd de histórias que havia mostrado para as crianças, com histórias da nossa região, com nosso sotaque caipira, acompanhado por uma bela viola ponteada.

      Ou então só queriam mesmo a música do Alvarenga e Ranchinho que cantava de vez em quando, o “romance das caveiras” ou então, já que queriam dançar, podia ser o Tumbalacatumba...

      Não sei, quis acreditar que queriam uma catira!

 

 

O sapo

 

      “O que vocês querem cantar” “querem música de que?”

      Começar um encontro de cantorias assim é muito bom, porém algumas crianças querem sempre a mesma música.

      “já toquei essa música!” e ficamos num revezamento, uma que o grupo escolhe, a música repetida daquela criança, a do grupo, a repetida, a do grupo...

      O sapo é bom porque existem várias musicas de sapo: o da beira da lagoa, o que não lava o pé, o da casaca verde sentindo frio... mas um dia estava demais, toda aquela turma queria saposaposaposapo, e estava com muitas músicas na cabeça para mostrar a eles. Mas enfim, como queriam sapos, pulamos, coachamos, lavamos os pés, todos foram sapos.

      Abstraí e fui tocar qualquer coisa ao violão, estava tocando linhas de baixo de música latina e me pediram de novo o sapo. Então ta! “o sapo é um bicho muito feio”, rolou um choque, e para amenizar cantei “o sapo é um bicho muito verde”.

      Fiquei com isso na cabeça, fiz umas frases rimadas com as que já havia feito e mostrei para as crianças de 4 anos, elas gostaram, ufa! Toquei para elas e pularam muito, crianças pulando me lembra o bom e velho rock and roll. Perguntei para elas sobre o sapo e adoravam falar sobre as moscas e a língua, então é isso! O sapo pula coaxa e estende o linguão!

 

 

Castelo Assombrado

 

      Mais uma vez o Arthur comigo! Me chamou para fazermos música, passou um menino e pediu que cantássemos a música do castelo (a noite no castelo, do Ziskind) e os olhos de Arthur brilharam, “é isso tio, faz uma música sobre o castelo!”. Na hora me viera alguns acordes, e a frase “era um castelo assombrado”.          Queria falar de um menino e Arthur disse para falar de fantasma, bruxa, zumbi, vampiro, morcego, teia de aranha. Escrevi as idéias num papel e mais tarde escrevi a letra, ficou numa gaveta, não deu pra ele ver o resultado, mas verá no cd!

 

Meninos, não!  

 

      Estava brincando com palavras, me divertindo com as crianças de 4 anos: catarro, meleca, patoca, potoca, paçoca. Nisso fiz uma frase que falava “não pegue na patoca, não coma a patoca, patoca não é paçoca não”. Nossa brincadeira acabou e saí pela escola.

      No dia seguinte cantei esse trecho para as crianças, que se divertiram muito.

      Estava em dias de reflexão sobre o NÃO e suas qualidades, questionando o SE (condições), e o quanto ainda somos pequenos rumo a uma educação mais sensível e infelizmente com muitos nãos e muitos se você isso, se você aquilo. Estava muito atento ao não e ao se, e ao ouvir condições e negativas proferidas a uma criança ficava louco.

      Nem tudo são flores. Sei que ainda estamos longe de alcançar uma educação que respeite e compreenda a criança e que estamos em meio a um processo para isso, de alguma forma ou de outra. Infelizmente o processo de cada um tem suas subjetividades, seus caminhos próprios, e não posso mudar o mundo no grito. Então num dia de quase final de ano, que a escola estava caótica, sentei num canto, peguei a letra que já tinha alguns nãos e soltei minha ira.

      Lembrei da adolescência, dos questionamentos, da contestação, dos zines, dos shows de punk-rock e saiu uma letra malcriada, que aos poucos foi se abrandando, mas que ainda continua com a interrogação, com a exclamação e com as reticências.

 

 

Lobisomem da noite eterna

 

      Não me lembro bem como comecei a compor com as crianças, mas acho que um dia estava com uma turma de 10 crianças cantando e fazendo virar melodia o que falavam e acompanhando ao violão, tentando achar uma temática e cantá-la, tentei com que cada um falasse uma frase e fossemos musicando uma história.

      Quase hora do lanche, quase hora de ir embora, sol, calor, certamente as crianças ficam impacientes, e aos poucos foram saindo do jogo.

      Falei que faria um rock e Arthur gostou da idéia e ficou até o final. E assim começou nossa parceria!
todos os dias me encontrava e perguntava quando faríamos nossos rock´s. muitas das canções são por “encomenda” do Arthur.

      Um dia desses de compor rock´s fiz uma base pesada e fiquei nela, Arthur queria uma música sobre lobisomem e me perguntou como fazer, disse que poderia falar sobre o lobisomem, quem é, o que faz, algum acontecimento importante, e saiu: “Eu sou o lobisomem da noite eterna, eu sou o lobisomem que mora na caverna”

 

Nada nada

      Ao longo do ano de 2014 algumas canções foram vindo, crianças cantando frases ou pedindo para que eu inventasse músicas. Muitas não foram registradas e tampouco viraram músicas. Com um disco para ser feito pensar em mais músicas é um grande perigo de se perder o foco: e depois como escolher dentre muitas, abrir mão de alguma, tarefa difícil!

      Já havia desistido levar para frente mais composições para o disco, mas um dia recebi um presente!

Estava sentado na mureta do quiosque, rodeado de crianças cantando o que pediam e o que inventávamos.             Eis que a história se repete, e Maria Clara fala que quer cantar uma música que inventou. Silenciamos, prestamos atenção nela e com muita graça e simplicidade cantou “nada nada nada nada, não estou fazendo nada”.

      Cantou com uma cara tão boa, um vozinha suave, aguda, frágil porém bem afinada numa melodia tão bonita e bem delineada, que já fui logo fazendo uma harmonia para a voz, pedi para que cantasse de novo e perguntei se poderia fazer um pedaço da música. Como ela disse que sim começamos: ela cantou sua parte, logo em seguida cantei “toatoatoatoa, eu gosto de ficar...” e não é que ela completou... “Atoaaaaa”.

      Cantei ela repetidamente, parece um mantra, encantei-me com a pequena canção tão espontânea! Essa teria que estar no disco!

 

 

Japa jumping blues                                                                             

  

      Essa foi a primeira música que fiz para crianças, no ano de 2012, e também partiu do meu encontro com elas.

      Fui convidado por uma escola de danças de Uberlândia, o UAIqDANÇA, para fazer a música de uma coreografia para crianças num espetáculo chamado CoroOrigami. Fui ver a aula das meninas de 7 a 9 anos e na outra semana eu é quem propus a aula de dança.
     Vi que as meninas eram muito ágeis, inquietas, pulavam muito, uma energia rock and roll, por isso fiz um Jumping blues chamado Japa Jumpingblues.

 

O boi

 

     As aulas de movimento que tinham na escola eram cheias de estímulos sensórios e visuais, instalações, músicas autênticas e as vezes a professora me convidada vara tocar.

     Um dia fui tocar e levei o violão e um instrumentinho de sopro que chama Kazoo. Saiu um cowntry.                    Curiosamente sempre que Enzo, de dois anos, queria uma música me pedia O Boi. A princípio era a única palavra que falava, depois vi que gostava mesmo do animal. Então cantava várias músicas que falam de boi, mas ele queria mais, então terminava a seqüência com um cowntry cheio de mugidos. Juntei a brincadeira de mugir nesse ritmo à música que já existia e aí está O Boi para o Enzo.

 

Bicho Poliglota

Essa é uma canção de estúdio, puramente!
no estúdio muitas idéias surgem, e se não há um produtor musical pra frear alguns impulsos artísticos! A idéia me meio porque as vezes tento cantar canções em espanhol para as turmas, e um dia uma criança me pediu para que cantasse ao música do bicho em outra língua. Não dei conta!
Por sorte naquela semana o músico chileno Hilário Amigo iria no estúdio gravar a voz de BossaRock do Tubarão, propus a ele a brincadeira de traduzir a letra. Assim lembrei que minha professora de canto, a cantora Juliana Penna é americana e canta jazz lindamente, e assim fomos nos divertindo com ritmos, timbres, idéias e idiomas.

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