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o que soa pelo caminho



me pergunto: se as pedras do chão tivessem uma voz, fariam um canto, grito, fala, sussurro? e como soariam as pedras das paredes, as portas e janelas, postes, lixeiras, grades, corrimão… não soam por si só, são materiais de outra qualidade, de uma ação outrora realizada uma única vez, e não instrumento para criar atmosferas. materiais diversos da vida cotidiana não foram feitos para soar, porém soam.

os passos do homem cocho a arrastar a perna me lembraram pratos de choque, ou um güiro friccionado lentamente. os passos apressados dos saltos das senhoras me lembraram uma caixa chinesa.

nisso, somos atravessados por falas, diversos idiomas, sons de carros, obras, diferentes músicas dos bares, é a cidade, está viva.

ao entrar num beco as grandes paredes laterais isolam o som do que acontece ali perto, ouço bem como soam meus passos a subir e descer as escadas… e ali, sozinhas no beco, essas pedras cantariam tranquilas e sozinhas? sussurravam todas ao mesmo tempo fazendo um som que sobe pelas paredes e faz daquele corredor um sítio quase difícil de atravessar com tanto som a cobrir o caminho? será que uma massa de sussurros pode ser mais intensa que um grito?

a cidade soa ali bem perto. ali naqueles becos que deságuam em pequenos largos silenciosos, posso perceber ao longe as dinâmicas da cidade: a intensidade da grande avenida transforma-se numa massa sonora, pano de fundo quase imperceptível.

entretanto o som-silêncio daqueles largos me faz escutar a sutileza sonora dos passos, do vento, das gaivotas, da vida cotidiana dentro das pequenas habitações daquele percurso, que nos chega aos ouvidos sem pedir licença.

os passos andam entre pequenas pedras brancas polidas, grandes pedras pretas, asfalto, pés no muro. cada um soa diferente, e como cantariam essas pedras? sinto que em cada diferente sítio/matéria em que piso é como se estivesse percutindo um instrumento diferente. seria mesmo possível andar em silêncio? e o passo de uma formiga?

por menor que seja o movimento, estamos soando. por mais sutil o passo, quando toma uma constância, torna-se um andamento e os sons ao redor me suscitam ostinatos.

cantarolo na minha cabeça esse som no andamento dos meus passos, assim começo a imaginar algo mais parecido com música do que sons cotidianos. bato em objetos da cidade e noto seus sons, seus timbres… e se esse pilar falasse, como seria sua voz?

faço a mesma batida em todos os pilares, todos soam, uns bem mais diferentes. se por aqui tivesse música o pilar já poderia ser um agogô.

entendo que um agogô só é assim porque alguem o inventou naquela forma, mas o pilar da rua poderia cumprir papel rítmico e timbrístico semelhante. a cidade soa por estarmos vivos nela. as coisas quando tocadas também soam, damos-lhes alguma outra vida. e se andar pela cidade pensando em como fazer soar as coisas?

a escuta do apanhar um objeto no chão, as dinâmicas corporais que faço para que isso soe, a escuta do ambiente para que minha pesquisa não importune o silêncio das pedras e das sestas.

chocalhar uma porta, alisar uma árvore, percutir com um graveto numa grade,(des) estruturar aquilo tudo que é cidade, e fazer com que a porta seja maraca, a árvore güiro, a grade tamborim. pois se ali ao lado toca um samba, não é por falta de instrumento que deixo de entrar na roda.

porém ainda fico a pensar que a porta-chocalho, nesta nova função, só será ouvida como tal com os ouvidos colados nela, e talvez fará o ritmo para os passos das formigas, assim como a fricção na casca da árvore fará um ritmo para as larvas, e o arrastar de pés do homem coxo, um ritmo de bolero aos meus ouvidos ao lado dos passos dele, e nada mais. começo assim, a apurar meu prazer pelo soar das coisas, ao imaginar a potência ensurdecedora das intensidades quase não perceptíveis.


fevereiro 2018


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